SOBRA TANTA FALTA

Mais açúcar no café, mais tempo para o descanso, um telefonema, um bilhete, um sorriso.

Mais um minutinho pra falar, mais dinheiro, mais fé, mais paladar.

Falta sempre aquela viagem, aquele disco que você não tem, um amigo que está longe, um elogio que lhe afague, uma palavra de amor daquele alguém especial.

Sobram a falta de espaço, a falta de satisfação, a falta de ar e o excesso de sol que faz ferver a pele e também queima esperanças.

Falta sempre um olhar, um desejo consumado, uma vontade inabalável, um livro, um poema, um coração sem maldade.

Falta assunto, falta acesso.

Falta perceber que as coisas – e as pessoas – não são descartáveis.

Falta sempre alguma coisa.

Um ventilador que funcione sem fazer barulho e nos livre do inferno, uma água mais pura, um banho demorado, uma piscina para os dias de calor, um vento mais ameno soprando alívio em nós.

Falta tanta coisa! Sobra tanta falta!

Faltam os amigos queridos todos os dias ao seu lado, falta inspiração, percepção. Falta consideração, assistência, ação.

Falta um sim.

Falta fazer a melhor canção de todos os tempos. Aquela que você ainda não compôs. Ou inventar uma arte tão mágica que lhe salve da loucura, que lhe redima do egoísmo.

Falta você se aceitar mais, achar-se mais bonito, olhar-se mais no espelho. Falta falar menos, sentir mais, desejar menos, entregar-se mais.

Ah, falta muita coisa.

Um sapato novo que não machuque, mais árvores na sua rua, mais árvores no seu planeta, menos egocentrismo, menos terrorismo, mais humanidade em ser-humano.

Falta preservação, falta bondade, falta delicadeza, falta verdade.

Falta parar de perder, parar de chorar, de sangrar, de doer!

Falta menos solidão, mais amplitude, imensidão, mais coração, mais respeito.

Falta a declaração de amor, a paixão sem consequências, a resposta afirmativa que lhe fará sentir tão bem que você pensará que tem asas.

Falta um minuto, um dia, uma semana, um mês, um ano, um século. Falta um segundo, um instante. Um agora.

Sobram essas faltas todas no diariamente sem fim da vida.

Aprender aquele instrumento, saber dançar melhor, boas comédias no cinema…

Falta enfeitar a janela com flores e deixar entrar o vento e a luz. Porque tem sobrado muita cegueira e muitas, muitas escuridões.

Falta tanta coisa.

Um caminho mais leve, o segredo revelado, a juventude eterna.

Menos veneno na comida, menos veneno nas palavras.

Menos lixo no mundo, menos lixo na alma. Mais saúde, mais inteligência.

Falta a cura de todos os males. Panacéia. Falta a cola definitiva para os corações partidos. Falta um remédio que nos dê alegria e que nos acenda o dia.

Falta uma fase da lua, uma estrela no céu, um beijo roubado.

Falta família reunida, domingo sem pressa, balada sem ressaca. Faltam gargalhadas.

Sobram a falta de alma, o excesso de mentiras.

Sobram as vontades proibidas, as dúvidas, o afastamento. Sobra o não.

Sobra o silêncio que te dói e te machuca. Falta uma pessoa, falta uma voz, falta um som.

Falta sempre alguma coisa que lhe complete, que lhe mude, que lhe faça acreditar. Algo que lhe faça querer ser melhor, que lhe faça querer acordar todas as manhãs.

O que nos falta é sobra. O que nos sobra é falta.

Falta sempre alguma coisa.

E agora, falta-me em mim.

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